sábado, dezembro 31, 2005

Aqui está um novo blog. Novinho em folha, como perceberão. Serve para proteger este de uma forma e de um conteúdo demasiado maçudo, por vezes a seco, sem no entanto dele privar os potenciais interessados (e corajosos, dada a caligrafia). Enjoy (not).

Para quem gostar mais dos produtos caseiros do costume, abaixo deixei-vos três posts que eu tinha ali, mas que tenho tido essencialmente preguiça de postar ultimamente.

Bom e por fim... "Até uma próxima ocasião, estimado leitor! Volte sempre!"
De uma mera associação de timbres simpáticos no contexto simultâneo a uma explosão subalterna da mudança de energias, igualmente estática, transmitindo a sensação de prazer semiorgânico, de formas acentuadamente claras e inamovíveis, mas de uma textura sensorial misteriosamente agridoce, assim se constrói um momento natural, efémero, de densidade eterna.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

De dia 26, à tarde:

Porquê escrever sofisticado
se somos todos
máquinas antigas e ultrapassadas?
Contentemo-nos com menosprezar
o nosso sentido crítico
e iludir a ilusão de estarmos perto
de um absoluto indefinível.
Se confinados à expressão,
queremos substitui-la
por aproximações expressivas
à realidade.
Deixemo-nos disso.
Absolvamo-nos de uma tentação inútil
e cedamos à tentação inicial,
banal
mas intrinsecamente resplandescente
de um brilho comum
que alivia.

Mas porque carga de água estou a escrever em verso??
...
...
Porque carga de água estou a escrever?
Da madrugada de dia 19:

black fucking metal

the obsolete turns to vomit
night sprays over my head the darkest, strangest, foreign sounds of recapitulation
overly sensible
too much for one's mist and sweetness

words can be, simply

they need not cry intention
just pointless drama

who understands life better than the dead?
surely not you, boys and girls
who seek reaffirmation in social grandeur.

open your wounds and dive into them

remember nothing
- remember yourself

be, without
always lone,
always the same ill structure pointing towards the unsolvable

other heads could change my world
but i cannot change the other heads

oh, fuck it
Da tarde de dia 18:

Quero sair daqui mas não quero sair daqui.
Apaziguem-me, fodasse.
Quer dizer...

Mas quem são vocês?!??

Tenho de sair daqui depressa.
Depressa, depressa.
Depressa, depressa, depressa!
DEPRESSA,

antes que me assolem a alma prisões perpétuas. Saber esperar é ir ao encontro da fuga, por vezes. Ficar num parado que esconde a maior das azáfamas sem finalidade é o gerador de todo um desconexo no gesticular cognitivo.

Mas enfim, isto da irrequietude é uma velha história e é o menos. A facilidade com que me privo desta é mínima, comparada com a dificuldade em esquivar-me às opressivas investidas da imaginação e recriação de um alheio destrutivo e inflexível.

Por isso, devo evitar estabelecer que evito. Evitar os escapes que não as palavras, por mais difíceis ou vagas, verdadeiras. Saber portanto esperar, mas nunca por nada em especial, que não a oportunidade de deixar de esperar.

Discernir o apropriado nas condutas possíveis, enfim, teoretizações pouco úteis num fim-de-tarde crescente. Já pouco de arte... E não vejam revelações propriamente ditas, onde estão apenas explícitos alguns passos a dar neste ponto do caminho para alcançar uma espécie de coexistência com as ditas, ao nível da simbiose de pontualidades.

Saiba-se esperar, pois este significado para já são letras de ócio.
Penso que, se eu o tivesse querido, poderia vir a ser um poeta. Da mesma forma que já pude vir a ser guitarrista. E seria um bom poeta, e seria um bom guitarrista. Não tenho sombra de dúvidas. Leia-se orgulho, leia-se especulação optimista, de qualquer forma o facto é que não me imagino nem uma coisa nem outra. Transporte-se isto para o resto, e não me imagino. De qualquer forma, não é importante que nos imaginemos, não são importantes as ambições. É importante, isso sim, encontrar a medida certa de certas coisas. Actualmente, a minha é a de improvisar alguns versos de maturidade dúbia, esboçar passos incertos em estradas de pedra ou madeira, ou um qualquer material inorgânico, olhar o mundo e as pessoas sempre que possível, em vaga simbiose saudável, a meia-distância. A medida certa, actualmente, não é a medida cheia. É o mais que consegui enchê-la. Não espero mais do mundo que um espaço. De mim, espero não vazar de arte e de emoções demasiado cedo. É uma espera orientada ao momento, isto enquanto, nas carruagens, os fiscais da limitação se atrasam. Uns físicos, outros sociais, uns que extenuam, outros que hostilizam passivamente, por descrédito e marginalização. Leituras fáceis, escritas difíceis, um papel convulso, ora múltiplo, ora nulo.

Tenho escrito algumas reflexões, nas horas em que algo obriga ao desabafo ou à descompressão do vácuo. Mas não me vou pôr a atafulhar o blog com um chorrilho de realidade abstraída e pessoal, demasiado para manter o interesse. Recapitular metas pessoais será mais um exercício de sanidade que um post, penso. Talvez abra um blog com uma compilação de alguns devaneios intra-psique, com alguns exercícios de retórica localizada, em tema. Mas aqui não... não quero perder os leitores que não tenho! :D Embora me preocupe que isto possa ser filtragem de posts, coisa que eu nunca fiz. Não quero mesmo entrar por aí. Sempre mantive isto como uma resposta espontânea e heterogénea à escrita. No entanto, mesmo pôndo as referidas filosofias eremíticas à parte, já deixei ali 3 cenas por postar. Raios, cuidado com o zelo de pseudo-integridades. Esses caminhos são o princípio do fim. Tou farto de saber isso.

Ora essa... estes dilemas... mas alguém quer saber disto pra alguma coisa?!
Nunca mais chega o horizonte.
Estático e pesado como um rinoceronte,
encaro a paisagem impaciente.
O pensamento dormente
extingue-se às manadas
de migrações algemadas.
Sinto o tempo em deslocação absorto,
e a inspiração é a de um morto.
Por fim, dá-se um transbordo
sob a forma de sangue no bordo
das esporas. Um frémito galopante,
e tudo é bonito durante este espasmo de instante.
Em redor, as caras passam em turbilhão sem amor.
A alegria (e tudo) perde de ser a razão. Sobra dor.

Sobra também, ímpar, o horizonte.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Incógnita


Quem és tu, imaginação na bruma
que se adensa insólita,
incómoda e imprescindível,

sob a forma de qualquer uma
que os meus segredos cita
com o seu olhar intangível?

Quem és tu? Uma mulher?
Um impulso? Uma miragem?
O pó das memórias? Emoção?

Não sei. Mas queria saber,
agarrar-te o pulso, ver-te paisagem,
contar-te mil histórias com a mão.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Semi-canto


Na cúpula dos Pensamentos
nova metáfora vazia
ecoa e subsidia
a ilusão de que não há tormentos.

Sereno então os Sentimentos.
Por fim a alma canta,
esvai-se a dor de garganta,
esvaem-se até os tormentos.

Porém, como todos os Momentos,
também este se esgota.
Fica a meio som a nota

da música principiada.
A acústica é constipada,
aqui na cúpula dos Tormentos.

domingo, dezembro 18, 2005

Redescoberta convicta


Fiz mais uma descoberta -
aquilo que eu já sabia
nesta tarde aberta
a reflexões e à maresia

de quando se abandona
as vagas de delinquência
dos impulsos à tona
de viver em intermitência

num mundo por colorir
para lá do imaginativo
cavaleiro até cair
dado o freio lascivo

que impede de viver
galopante na planície
de ventos a arrefecer
a espiritual imúndicie

de quando somos externos
ao nosso próprio calor
e aos nossos passos internos
com medo do sangue da dor.

Descobri, uma vez mais,
e sempre mais que nos outroras,
que a convicção são pardais
que tentam cantar contra as horas.
Escudo contra a despersonificação


Do alto do fosso existencial
fitas-me com uma lupa invertida
e gritas com o teu silêncio
a indiferença.

O modo das coisas
morre em ti
antes sequer de te alcançar,
à distância.

Visões góticas
perpassam pela noite escura
de ausência sombria
e germinam calos no andar.

Polvilhas-me com o pó
das emoções por fulminar
e sufoco o pistoleiro
num veludo fino grosso.

Ando, ando, ando,
circulo
em rotundas desencaminhadas
numa espiral inútil.

Tudo porque,
do alto do fosso existencial,
vês um mapa desfocado
que te ludibria a transparência

e te impede de ver
o amalgamar das fronteiras,
ao invés de linhas finas
e vazias.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Tenho voltado a tomar a decisão de sentir,
em antevisões de mágoa a sacudir
a minha débil existência por decidir.

Em transparência, atravesso a mão
do futuro a agarrar-me com o seu Não
e alcanço, desaparecido, a desilusão.

Ressurge, imposta em desmotivação, nova vontade
de envolver o velho manto em realidade,
desnudando a coxa ferida de ansiedade

que me impele manco ao retrocesso
até à divisão selada, onde ingresso
numa outra encruzilhada, sempre em excesso.

domingo, dezembro 11, 2005

Um dos momentos mais fortes da história do cinema... Diálogo que se desenrola entre Conan e o seu companheiro de viagem e de destino.


(Um sorriso de nostalgia infantil invade o guerreiro.)

Conan: "I remember days like this when my father took me into the forest. We ate wild blueberries. More than twenty years ago. I was just a boy of four or five. The leaves were so dark and green then! The grass smelled sweet with the spring wind."

(Curta pausa. Retoma as suas lembranças, agora angustiadas.)

"Almost twenty years of pitiless combat! No rest! No sleep like other men!" (Esvai-se o tom de fúria.) "Ahh... and yet the spring wind blows, Subotai. Have you ever felt such a wind?"

Subotai: "They blow where I live too... in the North of every mans heart."

Conan: "It's never too late Subotai..."

Subotai: "No. It would only lead me back here another day... in even worse company!"

(Pausa fatídica.)

Conan: "For us, there is no spring. Just the wind that smells fresh before the storm..."

sexta-feira, dezembro 09, 2005

"o caminho da sanidade", percorrem eles,
frases com voz e medida.
vestem-se sonhos de inverno
e abusa-se deles.
nos corredores estreitos amplifica-se o volume,
alarga-se a passagem.
escuras ruas pintadas
nascem sob os pés sem sonho.
pontapeiam-se os lugares mais comuns
num futebol amigável à distância.
esclarecem-se esperas mentirosas,
imensas e presentes.
dormita-se por baixo
numa divisão comprimida sem cantinho.
chega-se a casa, e fez-se isto e aquilo,
e rectifica-se a moldura,
e diz-se "ah, eu sou isto,
faço certas coisas
para satisfazer o meu lado assado,
mas sem esquecer aquele coiso importante.
então não é?"

as esculturas no pedestal caído de nascença.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Preciso de palpitar
em tom irreflectido,
as pálpebras por levantar
em sinal de descrença.

Preciso de realidades.
Explorar-me via alguéns,
especialmente hoje,
pelo menos enquanto escape.

Nunca estive a falar de sexo.
Isso paga-se sem complexo,
e faz-se sem preconceito.
O que me dava mesmo jeito

eram componentes expressivas
das que entre pessoas se avivam,
principais e libertadoras
de mensagens invísiveis.

De resto, está um nevoeiro
para além disto,
e tapadas estão as medidas
do importante, para além disto.

É natural.
O dia nunca é global.
A perspectiva só cabe num dia,
fica restrita ao banal.

Sei só que não se trata
de nada demasiado simples,
nem demasiado complicado,
mas sim de uma intangibilidade

irritantemente sempre ao alcance.
Mas destas irreflexões pouco se tira,
principalmente com cabeças pessoais
e intransmissíveis, que só são aquilo que são.

Disto se tira talvez,
em clave de fórmulas,
a insistência em ineficácias,
se assim se quiser, ou então

o pergaminho amarelecido
pela prosaicidade que cabe
em papéis, mas não em existências,
defensivas portanto, justificações.

Nada disto é verdade. Se a quiserem aceitar,
a única verdade é a falta de algo
conjugada com uma leve insónia
dispersa em papel vagamente confirmado.
noite com bolor

o naufrágio cerebral
de palavras sempre iguais
os momentos desiludidos
a corrida de barreiras
o sono doente
rancor hiperdepressivo

pequenos momentos diferentes
e tudo teria sido diferente
a partir do abstinente
culpado

mas não faz mal
espera-se recicla-se